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Opinião · Mercado · SCA

Por que você deve desconfiar de cafés que se dizem acima de 90 pontos

Por Artefato Cafés Especiais · Fazenda Chapadão, Cerrado Mineiro
Família produtora de café na Fazenda Chapadão ao pôr do sol no terreiro

Nota editorial: este artigo é uma opinião da Fazenda Chapadão sobre práticas que observamos no mercado de café especial brasileiro. Não nomeamos marcas ou concursos específicos. O objetivo é ajudar o consumidor a fazer escolhas mais informadas.

Nos últimos anos, o mercado de café especial brasileiro cresceu muito — e com ele, uma tendência que nos preocupa: a proliferação de cafés anunciados com pontuação acima de 90 pontos SCA. Embalagens, sites e redes sociais cheias de "92 pontos", "93 pontos", "campeão de concurso nacional com 94 pontos".

O problema? Essas notas raramente correspondem ao padrão que o número representa.

O que significa 90 pontos na escala SCA de verdade

Na escala da Specialty Coffee Association, a pontuação 90 está na faixa "Excepcional" — o topo da pirâmide. Um café acima de 90 pontos é extraordinário: raríssimo, geralmente um microlote de safra específica, colhido em condições perfeitas, processado com precisão cirúrgica, avaliado por múltiplos Q-Graders em condições padronizadas.

Para ter referência: o Cup of Excellence, o concurso de café mais rigoroso e respeitado do mundo, tem processos de avaliação com 3 rodadas de cupping e júri internacional. Para ter dimensão: no Cup of Excellence Brasil 2025, foram apenas 10 lotes com pontuação acima de 90 pontos, com notas entre 90,08 e 91,68. Isso em todo o país, entre centenas de amostras avaliadas.

O problema com os concursos de baixa rigidez

Com o crescimento do mercado de especiais, multiplicaram-se os concursos regionais, estaduais e temáticos no Brasil. Muitos com metodologias sólidas. Mas outros com rigor questionável: júris pequenos, protocolos pouco documentados, ausência de calibração entre avaliadores, e — em alguns casos — conflitos de interesse entre organizadores e participantes.

"Quando vejo uma embalagem dizendo '95 pontos — Campeão do Concurso X', a primeira pergunta que faço é: qual era o protocolo de avaliação? Quantos avaliadores? Eram Q-Graders certificados? O concurso teve custeio independente? Sem essas respostas, o número não significa nada objetivo." — Fazenda Chapadão

Não estamos dizendo que todos os concursos são desonestos. Estamos dizendo que nem toda pontuação alta tem o mesmo lastro metodológico — e que o consumidor raramente tem como distinguir um do outro olhando apenas para a embalagem.

A banalização que isso cria

Quando qualquer café pode se dizer "90 pontos" sem que o consumidor possa verificar, a pontuação deixa de ser informação e vira marketing. Isso prejudica todos: o consumidor que paga caro por algo que não corresponde ao que comprou, os produtores sérios que buscam pontuações reais com avaliações rigorosas, e o mercado de especiais como um todo.

É como se todos os vinheiros brasileiros começassem a se autodeclarar "95 pontos Robert Parker" sem nenhuma avaliação independente. O número perde o sentido.

A posição da Fazenda Chapadão

O Paraíso Natural da Fazenda Chapadão conquistou o Café Presidencial no Cup of Excellence Brasil com 90,11 pontos — o concurso mais rigoroso do mundo, com júri internacional e três rodadas de cupping. Sabemos exatamente o que significa alcançar 90 pontos de verdade.

E justamente por isso sabemos o que não significa.

Pontuação SCA é potencial, não produto final

Há um detalhe técnico que raramente é explicado ao consumidor: a pontuação SCA avalia o café verde — o grão cru, antes da torra — por meio de um protocolo de preparo padronizado. Quando torramos nossos cafés para consumo, desenvolvemos perfis de torra que realçam as características que queremos entregar: mais doçura, menor acidez, determinada textura na boca.

Essa torra de consumo nunca é reavaliada na escala SCA. Se fosse, pontuaria diferente — porque é um produto diferente. A pontuação original é um indicador do potencial da matéria-prima verde, não uma garantia do que está na xícara após a torra.

Por isso não vendemos nossos cafés com pontuação SCA nos rótulos. O número serviria de marketing sem representar fielmente o que chega até você. Preferimos descrever o que você vai sentir na xícara.

O que o consumidor pode fazer

Antes de confiar em uma pontuação alta:

O mercado de café especial brasileiro tem produtores sérios produzindo trabalho extraordinário. Eles merecem um consumidor que valoriza pontuações reais — e não o barulho das notas infladas.

Transparência acima de tudo

Cafés da Fazenda Chapadão, torrados no pedido

Conhecer nossos cafés com pontuação real →

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